Quedas de peças de fachada ameaçam a segurança de moradores e pedestres
Na quarta-feira de cinzas deste ano, uma placa de granito desabou sobre uma estudante que passava pela rua…
Seis placas desabaram da varanda de um prédio no Leblon, Zona Sul do Rio, e atingiram a jovem, de 20 anos, que sofreu traumatismo craniano.
Mas
por que essas placas se soltaram?
Primeiramente, vamos entender o que é
o sistema construtivo de fachada.
O sistema de revestimento corresponde
ao acabamento final de uma edificação, sendo a parte que se apresenta mais
visível, com a finalidade principal de proteção de paredes externas.
A função protetora é a que mais se
destaca pela sua importância, pois visa resguardar as superfícies a serem
revestidas contra os agentes facilitadores da deterioração. Dentre esses
agentes, podem ser citados: a infiltração de água de chuva, água do solo, água
de uso e/ou de manutenção, além da ação de ventos, temperatura e umidade do ar,
ação de fungos, ataque de roedores e outros agentes de carga, de uso e de
sobrecarga.
Além disso, o revestimento também
cumpre a função estética, ligada ao conforto visual, envolvendo ainda questões
de gosto pessoal, vindo a se constituir em um verdadeiro elemento de
valorização do empreendimento.
Vamos entender quais elementos
constituem uma fachada desse tipo.
Em primeiro a base que é constituída
pela alvenaria ou estrutura de concreto e tem como função dar suporte às
camadas posteriores.
Depois temos o chapisco é uma camada
de argamassa fluida constituída exclusivamente de cimento e areia e tem como
função gerar maior aderência entre a base e as camadas posteriores.
Por cima do chapisco temos a camada
do emboço é constituído de argamassa mista também composta de cimento e areia,
porém com uma composição diferente. Tem como função regularizar a base
(alinhamento e prumo) e servir de suporte para o assentamento das peças
decorativas.
A finalização estética é feita por placas
decorativas em pedras naturais ou industrializadas, como as cerâmicas.
Para o assentamento das placas
decorativas são utilizadas argamassas colantes que são constituídas de
aglomerante, agregado miúdo e aditivo que deverão conferir a fixação das peças
decorativas ao emboço.
Para regularizar as superfícies entre
as bordas das placas são usadas argamassas de rejuntamento que têm a função de
proporcionar uma superfície regular e ajudar na estanqueidade do revestimento.
E, por fim, um elemento muito
importante são as juntas de dilatação, que são juntas projetadas para aliviar as
tensões provocadas pela movimentação da alvenaria ou do próprio revestimento,
assim como as movimentações decorrentes da deformação estrutural.
É importante observar então que uma
fachada possui várias camadas, e que cada uma delas pode se tornar um ponto de
falha e ocasionar uma ruptura.
O prédio da reportagem em questão foi
construído em 1982, época em as normas possuíam tolerâncias diferentes das de
hoje em dia e permitiam a instalação de pedras naturais em fachadas apenas com
argamassa colante.
Porém, em 2010, a norma foi alterada para minimizar os riscos de queda das pedras exigindo-se sua fixação através de parafusos ou inserts metálicos.
Inspeções de fachada devem ser anuais!
Outro ponto a ser observado é a
necessidade de inspeção da fachada anualmente, em que se deve verificar:
- Integridade da fachada: checar as condições da peça e do suporte que a
sustenta. - Segurança: verificar se há fissuras, desplacamentos do reboco adjacente,
ou falhas aparentes. - Estanqueidade: identificar a presença ou não de umidade e vazamentos na
fachada, se o concreto apresenta algum ponto de corrosão da armadura, ou se há
manchas que caracterizariam a presença de água.
Sempre que a inspeção identificar um
dos problemas acima, os mesmos deverão ser mapeados e corrigidos por empresa especializada
que contenha um profissional habilitado.
Um item importante é lembrar que os
trabalhos em fachada implicam em risco de queda em altura do funcionário e, por
isso, todos devem ser treinados adequadamente dentro das normas pertinentes,
como a NR 35 do ministério do trabalho.
Quando esses cuidados não são executados, o sistema de fachada pode desenvolver patologias que não são visíveis de imediato e podem se deteriorar até que uma falha catastrófica cause um acidente grave, como o da reportagem. Mas para cada acidente grave, vários “quase acidentes” ocorrem sem que alcancem a grande mídia. Para mitigá-los, apenas com a inspeção e manutenção cuidadosa da fachada!
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Aguardar os problemas aparecerem nos prédios para então resolvê-los, geram correções muito mais caras do que implantar uma cultura de manutenção preventiva.
Os edifícios, assim como as pessoas, precisam de cuidados constantes.
Desabamentos como os da cobertura da Igreja Renascer, em São Paulo, do edifício Liberdade no centro do Rio de Janeiro, e do edifício Senador, em São Bernardo do Campo (SP), são exemplos de tragédias que ocuparam o noticiário nacional recentemente e que trouxeram à tona a preocupação com as condições de uso e manutenção das edificações.
Quem é o responsável pela manutenção predial?
A responsabilidade legal de garantir que as edificações preservem suas condições de segurança para os usuários é do Sindico, sendo citado no Código Civil (item V, artigo 1.348), Código Penal (artigos 129 e 132) e no CDC (item VIII, artigo 34) como o principal agente para garantia da salubridade e conforto, cuja atuação é através da inspeção e manutenção predial. Atualmente, várias cidades brasileiras possuem também legislações específicas para a segurança estrutural dos edifícios, a serem observadas na elaboração dos projetos e na execução, bem como no funcionamento das edificações.
Como implantar a cultura de manutenção preventiva nas edificações?
O passo inicial é através de uma inspeção predial, que se trata de uma avaliação do real estado de conservação e manutenção da edificação, bem como o grau de criticidade das deficiências constatadas. A inspeção possibilita a emissão de laudo com prioridades técnicas que auxiliam na elaboração do plano de manutenção.
É uma espécie de consulta com clínico geral a partir da qual se estrutura o laudo de inspeção, documento técnico, que deve ser conduzido de acordo com as orientações e prazos estipulados e, ainda, pode ser útil para apoiar estudos de valorização e modernização de imóveis e reduzir prêmios de seguro. O mais importante é que o laudo de inspeção predial contenha informações claras sobre os problemas encontrados e como o síndico poderá resolvê-los de forma prática.
Ao lado, um infográfico apresenta os diferentes sistemas que devem ser avaliados, no mínimo, em uma inspeção predial:
1.Alvenarias
2.Estruturas de concreto armado e protendido
3.Fundações
4.Para-raios e aterramento
5.Impermeabilização e Cobertura
6.Instalações elétricas
7.Revestimento de fachadas
8.Instalações hidráulicas e de gás
O essencial é compreender o risco que a falta de manutenção em sistemas como os citados acima podem ocasionar para a edificação. Por exemplo, o sistema pára-raios e aterramento tem o objetivo de direcionar as descargas elétricas para o solo, se o edifício for atingido por um raio. Caso esteja deficiente ou inoperante, pode resultar em perdas dos equipamentos elétricos e até incêndios.
A inspeção predial deve ser realizada por empresa especializada que possua profissionais habilitados, com inscrições válidas no CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia). É importante que se avalie a experiência dos profissionais envolvidos e o escopo dos serviços prestados.